quinta-feira, 7 de outubro de 2010

Rio de Janeiro, em janeiro de 1990


Gina, preposição dos meus dias:

Veio em boa hora a tua carta. Já a minha, mais atrasada, porque minha, só agora: papel de assuntos acumulados, com um cheiro falso de pergaminho; de fantasmas, talvez.
Desde a tua que te escrevo e escrevo outras cartas, de memória. Esta é o que são todas elas, misturadas e difíceis de desembaralhar.
O caso é que eu sou burro e lerdo pra entender todas as coisas que você sabe e tenta me fazer aprender sem me ensinar. Eu tenho perguntado, pedido conselhos, mas todos dizem: "Ah, o amor não; não me comprometa; não sei de nada, etc". E sigo sozinho, ignorante, com vontade de me destruir e fazer outro que nos agrade a ambos. Por iss mesmo, digo logo que não se assuste: toda paixão é invejosa, é tenebrosa. Eu te dou a mesma moeda: o amor é cego e a cegueira é surda como um porta, que, de tão, ninguém vende, ninguém troca nem empresta. O amor: nosso presente. Que presente eu te dou?
Continuo te estranhando o jeito de não me falar das coisas. Eu te falo(não falo): Eu te dou a mesma moeda, diferente: a moeda que te dou é minha, e é a mesma que também você me dá, só tua.
Numa das vezes em que escrevia uma carta, essa, outra, larguei-a, fui ver TV e depois dormi. Na TV, assisti a um filme sobre a tragédia de Lady Jane e seu marido, reis da Inglaterra durante nove dias, jovens apaixonados e ingênuos, decapitados; noutro, a paixão de Judy Garland e Gene Kelly, num filme dos anos 40, em technicolor, com happy end, etc; noutro ainda, a paixão incontrolável entre um capitão autríaco e uma noviça, preceptora de seus sete filhos. Tudo lindo, necessário e inútil. Tão necessário e linda quanto todas as canções de amor que qualquer homem já cantou sobre a terra. Tão inútil quanto. Suspeito que a canção possível ao amor nosso de cada dia deve vir de mim e de você, que somos assim e assado, que aprendemos tais canções e vimos tais filmes. Etc.
No começo era o verbo. E tudo, tão no começo, parecia tão óbvio, que era bastante fácil encontrar palavras, ou inventá-las; ou, quem sabe, as palavras nos inventam, e dizíamos: o amor, etc, etc. Hoje, preciso falar pra você de uma moeda, de uma outra que é minha, de uma terceira, que é tua, pra dizer que é ainda outra, que também não tem nome. E isso, faço pensando num jeito de falar(de um jeito que nem se fale), com a certeza mais pura; tão pura como no começo, de verbo, de silêncio, de não sei que outra palavra( que também não me basta), com a certeza de que, para além da dúvida que há, há o meu amor e o teu, que vêm de mim de você, de você de mim.
A minha história, a tua, a de todas as pessoas que já viveram, paira sobre tudo. Falo de uma moeda, já disse, pra dizer que não se empresta, não se vende, não se. Moedas não valem nada, afinal.
Mas sim, tua carta é legível; bem mais que esta. E algo que eu supus ter dito já, de outras formas, quero te dizer agora por escrito( a carta está assinada-vá, talvez, a alguma cartório, e registre; mande publicar nalgum jornal): Eu te amo, mesmo quando nem penso em você, mesmo quando tenho fome ou dor de cabeça. Mesmo quando estou cansado demais para o mais mínimo gesto de amor, eu te amo como jamais a outra pessoa. Eu te amo, enorme, gigantesca, amor preposto em carne, espírito e coisas outras que não sei o nome.
Não gosto, porém, de achar que é necessário fazer juras de amor eterno todos os dias; não quero que as juras nos sustentem: Há muito tempo não é mais a fé que leva os crentes a se voltarem a Meca, todos os dias, às seis da tarde, em gestos vãos como dar bom dia. Deus não serve pra nada- não falamos, ninguém fala a mesma língua. Ninguém fala. E o verbo, carne do desejo de quem diz, é vão em orações e preces; em juras de amor. Deus está morto em palavra. E na sua observância impaciente assiste incrédulo às tentativas que fazemos, ainda hoje, na mesma Torre de Babel. Deus está morto, como estamos, uns parcos bilhões de seres, divindades parcas, presos no emaranhado de umas poucas palavras que não deixam mentir: estamos sós. Toda solidão é involuntária. E nós, aos pares, aos bandos, estamos absolutamente sós. Dá-me o prazer desta contradança, desta contradanação?
De, por, para,


Luiz Henrique

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