quinta-feira, 6 de maio de 2010
quarta-feira, 28 de abril de 2010
sábado, 24 de abril de 2010
segunda-feira, 19 de abril de 2010
Mais um clichê
Lá pelos meus dez anos foi quando eu ouvi a palavra "amor". Não sei bem porque mas eu sempre ouvia essa palvra com um toque de medo ou de descrença na voz das pessoas, as vezes parecia coisa proibída, "coisa de adulto". Dona Candinha chegava a se benzer quando mamãe e ela falavam do amor que tinha na casa da Celeste e do marido dela. Diziam ser coisa do demônio aquele "fogo" todo. Eu sei que nessa brincadeira o amor virou falta de respeito, abuso, "coisa do coisa ruim", segredo e muitas outras coisas que além de proibídas eram perigosas.
Fiquei sem saber como era esse tal de amor, se tinha alguma forma, alguma temperatura, algum gosto. Seria gostoso? Seria amargo? Não conseguia entender nada. Do amor eu só conhecia o que eu desconhecia dele e isso me deixava inquieta, não durmia, não chorava, não ia nem ajudar minha mãe.
Tratei de investigar e comecei um jogo de "jogar verde pra colher maduro" com as pessoas que eu conhecia, só pra conseguir mais uma informaçãozinha sobre esse tal de amor. Sei que em um dado momento minhas investigações tiveram de parar porque foi aí que apareceu o Robertinho.
Robertinho jogou fora meus materiais e arquivos de pesquisa sobre o amor, ocupou o tempo que a investigação ocupava, me fez esquecer desse tal amor e começar a investigar a vida dele. Larguei dessa mania de procurar amores e fui começar a descobrir coisas do Robertinho. O meu interesse pela temperatura dele, a forma dele e o gosto dele tomaram o lugar das questões sobre as paixões que pertubavam a minha vida.
Faço o jogo de "jogar verde pra colher maduro" com Robertinho até hoje, sou detetive do interior dele, gosto disso. E hoje, lembrando dessa minha busca pelo amor, eu penso que talvez eu nunca vá achar o tal gosto do amor. E talvez eu nem deva achar.
Incapacidade
Até hoje me pergunto sobre a existência deste blog. Nunca dei pra essas coisa de escrever, costurar textos e emendar palavras é com dona Georgina, é coisa de Guimarães, é coisa pros grandes; não sei fazer isso. Sou incapaz de escrever algo que seja pelo menos bom. E pensando na minha incapacidade de fazer as coisas resolvi escrever sobre elas para ver se elas se tocam e melhoram, se simplesmente alguém surge pra me ajudar ou se elas ficarão mais confortáveis: Não sei escrever.Não sei ler muito bem.Não sei estudar direito.Não posso ver a fome.Não posso aguentar injustiças.Não posso ficar parado.Não consigo fugir de confusão.Não consigo deixar de me rebaixar.Não consigo parar de sofrer.Sou incapaz de viver sem amar.Sou incapaz de viver sem amor.Sou incapaz de ficar sem a arte.E talvez isso um dia me mate.
quarta-feira, 31 de março de 2010
A confraria
Eu lembro que quando começaram as reuniões da confraria na casa da Thereza, minha mãe não me deixava assistir. Nunca entendi por que, já que ela alegava um motivo diferente a cada dia que eu implorava para ir: "Ai, Camilo, você não vai entender nada.", "Ai, Camilo, você vai falar besteira e vai atrapalhar", "Ai, Camilo, você vai querer vir embora.". De tanto ouvir "Ai Camilo..." acabei me conformando com as proibições e guardei o meu desejo.
A confraria sempre me pareceu uma seita secreta onde mulheres se reuniam pra falar de literatura. Algo bem como ABL mesmo. E foi logo após a morte de uma das confreiras que eu comecei a forçar a minha participação na seita. Não fui iniciado nas palavras e nem passei pelos ritos de escrita que elas passaram para entrar, comecei como xereta mesmo, como intruso. No fim elas viram que não tinha mais jeito e que eu não ia sair de lá...acabei ficando.
Não sou um confreiro e nem escrevo na confraria mas eu me divirto vendo aquelas mulheres falando com gosto do que leem, rindo do que é ridiculo, discutindo em defesa da palavra. Acho bonito, só.
Talvez se eu não tivesse gostado do que os meus pais me mostraram como bom eu não veria tanta beleza naquele grupo. Porque parece que todo dia nasce uma coisa nova ali na mesa, parece que o lápis ou o computador suga todas as ideias e brincadeiras que correm na cabeça dessas confreiras, e pra mim não tem como não ver beleza nisso.
Não sei porque teimo em permanecer assistindo as reuniões da confraria já que não consigo traduzir o real em palavras como elas. Mas talvez o gosto que eu peguei pela pavra escrita, cantada e falada tenha me prendido ali no meio das quatro.
Depois da paixão pelas palavras veio a paixão pelas quatro meninas. Também, seria quase impossível não me divertir com as histórias engraçadas da Mariana, com as palhaçadas da Vera, com as palavras caprichosas da Fernanda, com a cultura assustadora da Célia e com a revolução que minha mãe provoca. Uma revolução literária que começa dentro da gente, fazendo com que comecemos uma briga com aquilo que lemos e escrevemos, nos tornando mais chatos, fazendo passeatas contra os maus tratos à palavra e pondo no paredão todos aqueles que fingem ser maiores que a literatura. Uma revolução que todas ali fazem parte, uma revolução que aprendi no berço e que me tornou um militante junto à minha mãe. Eu me orgulho disso.
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