terça-feira, 28 de setembro de 2010

Infância

Se eu tivesse uma pedrinha
Eu botava ela no caminho.
A deixava miudinha
Pro chão não ficar sozinho.

Se eu tivesse uma folinha
Eu cobria os olhos dele.
Para que ela, tão miudinha,
Não prendesse minhalma nele.

Se eu tivesse uma gotinha
Eu a fingia de lágrima.
Pois como ela é miudinha
Limparia meus olhos dágua.

Se eu tivesse uma paixão
Iria guardar essas miudezas.
Porque tudo ficaria grandão
E aumentariam as incertezas.


Para o príncipe encantado, o namorado eterno sem namoro: André.

sábado, 25 de setembro de 2010

Lágrimas Negras(e/ou)Por parte de pai

Com os olhos úmidos,
de lágrimas,
Ela virou e quase gritou.
Mas um grito surdo.
Chorado mesmo:
É muito triste saber que ele não existe mais.

A existência do não existir ainda é difícil
Para o homem, para mim, para minha mãe...
E para o único protagonista da história.
Aquele que ainda tem medo da imortalidade criada.

Ela ficou triste pelas férias da existência.
Eu fiquei magoado com a mentira do Mautner.
É que no caixão,
Os poços de petróleo de meu pai,
Não tinham mais luz. Nem mesmo a negra.



"São poços de petróleo/ A luz negra dos seus olhos"

sábado, 18 de setembro de 2010

Estrela da vida inteira

Manuel Bandeira achou a uma estrela.
Ele pegou essa estrela na mão.
Depois de muito olhar ele percebeu,
Que aquela era a estrela da vida inteira.

A estrela que eu achei pra me acompanhar,,
Igual aquela que Manuel usou,
Não é da vida inteira.
Porque ela cisma em me viver pela metade,
Não se doou por inteira até agora.

Não sei se essa estrela um dia será inteira pra mim.
[Ou pra ela
Não sei também se essa será minha estrela da vida inteira.
Mas por enquanto,
Enquanto não passa o próximo cometa.
Eu aceito viver pela metade com ela.

Toda vermelha



Quando criança, ninguém me assoprou no ouvido
Como fizeram com a Drika.
Quando criança eu ouvi uma história.
Quando criança eu contava:

Era uma vez um lago.
Mas um lago muito distante.
No meio desse lago tinha uma flor,
Uma flor rosa toda vermelha

Os ouvintes de mim quando criança
Riam,
Riam demais até eu não conseguir mais contar.
Não sei como a história termina.

Não sei aonde foi parar a flor...

O perfume




Chegara bem antes do combinado, sempre fazia assim. Não conseguia chegar muito perto do horário marcado, parecia que ele preferia se machucar olhando as horas passarem lentamente até chegar ao horário dos seus encontros.
Foi direto para a livraria, só lá ele encontrava um meio de amenizar sua agonia, sua angústia, sua ansiedade. Andou por todos os lados do espaço, vasculhou todas as estantes, folheou alguns livros bobos e riu das bobeiras que leu.
Chamou um atendente e perguntou sobre o primeiro título que veio na cabeça. Não queria ler, só precisava se distrair, enganar o seu coração, para que ele não gritasse tanto perguntando pelo outro. O atendente demorou muito para encontrar o livro, mas o achou.
Quando pegou no livro, só conseguiu ler um conto maravilhoso de Antonio Carlos Viana; porque, enquanto seus olhos mastigavam as letras, a sua cabeça imaginava coisas e seu coração perturbava com perguntas: Será que ele vai gostar da gente? Será que ele é bonito mesmo? E se ele não vier? Olhe a hora, ele não vem mais, pode apostar.
Segurou-se para não gritar, se não chamaria a atenção dos clientes e assustaria os livros. Fechou o livro e ficou andando por ali tentando afastar as imagens inventadas e as perguntas bestas. Não conseguiu.
O celular tocou uma vez, e com as mãos tremendo conseguiu atender. Era ele, dizendo que chegaria logo. Puxa, ele iria, não tinha mentido. Para sua surpresa, as perguntas aumentaram e as imagens voltaram com toda a força, não queriam se acalmar.
Precisou comprar uma água para relaxar, estava tenso demais, não conseguia se conter. Bebeu a água em um gole só, e mesmo assim ainda estava nervoso. O horário estava estourando ele ainda não tinha aparecido.
Enquanto olhava para além do vidro da porta, passou perto dele um rosto conhecido, ele então virou-se para ver se era mesmo ele, mas pensou que era só mais uma besteira criada pela sua cabeça. Ignorou. Insistiu com a imagem e olhou de novo; sim era ele. Sua cabeça não mentia tanto assim. Sorriu involuntariamente, e seu sangue pareceu ferver de alegria quando pode abraçar aquele corpo.
Era tão lindo, tão doce, tão tímido, tão cheiroso. Não poderia estar ali, não com ele. Sentiu uma vontade enorme de beijá-lo na frente de todos, mas conteve-se, sentiu uma vontade enorme de apertar sua mão, mas conteve-se, queria sentir melhor o seu cheiro, mas conteve-se.
Enquanto a história se apresentava para os dois, ele só pensava em olhar para aquele rosto que sustentava duas lentes que brilhavam no escuro. De vez em quando puxava assunto, não por educação, mas para poder ouvir a voz dele mais um pouquinho. Só para ter certeza de que estava do lado dele, com ele, ouvindo ele, só ele. Não conseguia sentir mais nada, além do perfume maravilhoso que aquele corpo exalava. Parecia querer provocar.
A história terminou mal, e no fim só conseguiu alguns toques dele. Mas ao se despedirem, ele deixou um presente. Deixou com que ele ficasse para sempre, com a lembrança do seu cheiro.

Feliz natal



Na casa de dona Maria estava uma correria só. Seus filhos e netos não paravam de ir de um lado ao outro, enlouquecidos com os preparativos do natal. Dona Maria nem conseguia pensar em nada, o ensopado estava tomando conta de toda a sua atenção; aquele vapor que vinha da panela a estimulava a mexer mais e mais, como se seu o braço fosse uma máquina. A panela de dona Maria já estava meio velha, mas o ensopado do natal não poderia ser em outra panela, tinha de ser naquela, que já estava amassada de tanta lembrança. Naquele momento Maria mexia não só o ensopado, mas como suas memórias, guardadas há trinta anos. E talvez seja por causa dessa mistura que Maria não conseguira pensar em mais nada, já não conseguia mais distinguir uma lembrança da outra, estava tudo igual dentro da panela.
Depois que estava tudo quase pronto e as crianças corriam ansiosas com o brilho mágico que vinha dos embrulhos proibidos de presente; dona Maria mandou todos se sentarem a mesa, por os talheres, o peru, seu ensopado e suas lembranças na mesa. Depois que seus filhos e netos ocuparam a mesa, todos perceberam que um lugar estava vago. Nesse momento começou um burburinho e dona Maria permaneceu quieta e elegante. Derramou algumas lágrimas, mas não movia um músculo sequer.
O marido de dona Maria tinha morrido no ano passado, e todos os filhos tomaram um enorme cuidado para não pregar essa peça na pobre senhora. A peça de deixar um lugar vago como se Jorge fosse beber e comer novamente com sua família. Como se ele estivesse ali para rir. Como se eles estivesse ali para contar piada. Como se ele estivesse ali para comer o ensopado.
A filha mais velha foi então pegar um remédio na vizinha para baixar a pressão da mãe. A dona Lurdes atendeu a porta com um sorriso maravilhoso e não reclamou em ceder um de seus comprimidos. A vizinha fechou a porta e voltou para a sua ceia em família. Quer dizer, ceia entre amigos. Todo ano era assim: Lurdes só chamava para cear os seus amigos de anos, e era naquele momento feliz em que eles contavam tudo um para o outro. Todos os segredos iam embora antes da sobremesa. Esqueciam a idade que tinham e agiam como um clube secreto da época de criança de cada um.
Sem tirar o seu lindo sorriso do rosto, dona Lurdes disse que ia até o banheiro bem rapidinho e já voltava. Deixou então, os seus amigos na sala e foi até o banheiro. Lurdes lavou o rosto, lavou a mão e secou tudo com muito zelo, depois olhou para o espelho e viu o seu lindo sorriso refletido. Naquele momento ela lembrou do quanto a sua vida era desinteressante, do quanto já mentira para seus amigos naquele momento solene, só para ver se assim fazia com que a sua vida parecesse mais bonita. Não que ela mentisse ou exagerasse, mas por uma corzinha em um relato sobre compras, sobre viagens, sobre espetáculos, não fazia mal a ninguém. Ou fazia? Era isso que incomodava a pobre Lurdes, ter de mentir para quem não precisava disso. Aquele sorriso foi então minguando, minguando, minguando, até que se transformou em choro, um choro maior que o de dona Maria. Um choro quieto, mas um choro forte, um choro sofrido.
Enquanto Lurdes escondia mais um segredo em seu banheiro, o interfone tocava desesperadamente pedindo para ser atendido. Lurdes então se recompôs muito rápido e saiu com o seu sorriso maravilhoso no rosto para atender o interfone.
Do outro lado da linha falava dona Elsa, uma de suas amigas, dizendo que não poderia comparecer a ceia de dona Lurdes porque estava muito indisposta. Qual nada! Lurdes sabia que Elsa nunca aparecera a uma reunião de natal, sempre inventava alguma, sempre. Mas como sempre foi uma madame, dona Lurdes, lamentou horrores a ausência de dona Elsa e desligou o interfone desejando um bom natal.
Dona Elsa não fazia idéia do porque que ainda cismava em se justificar para Lurdes todo ano que não iria passar o natal com ela. Mas dane-se, Elsa já nem se preocupava mais com isso, ela estava começando com os seus preparativos, como todo ano. Pos na mesa a sua cadeira, abriu uma enorme caixa de bombons e abriu o seu melhor vinho. Olhou para o vinho e para os bombons e sorriu um pouco. Encheu uma taça, mergulhou um bombom no vinho, e o levou aos lábios com muita gula e luxúria. Lembrou-se então de suas amigas, daquelas pobres amigas. Soltou uma enorme gargalhada e abriu uma garrafa de cachaça, pos um pouco atrás da porta para o seu Exu e depois fez a mesma mistura que tinha feito com o vinho. E assim a noite se estendeu até seus bombons acabarem. Todos fadados a morte pela bebida de dona Elsa.
Quando deu três horas da manhã, Elsa levantou a sua taça no ar e desejou feliz natal a si mesma. Sempre estava feliz nesses momentos, sempre. Elsa não chorava nos natais por falta de família, ou por omitir segredos, não, não precisava disso. Elsa não precisava de ninguém, só de si, só do seu sorriso, dos seus momentos em paz. Não sentia falta de companhia porque nunca teve uma, então acabara se acostumando com a falta. E também não ligava para segredos, porque nunca se preocupara com o que os outros iam achar de sua vida, não usava máscaras, não. Mas ria à beça das máscaras das outras. Ria muito, até mesmo porque, o maior segredo de Lurdes, era a sua antiga paixão por ela; e antes de Jorge falecer, dormira com ele por quinze anos, bem debaixo do nariz de dona Maria. E sempre que o natal chegava, ela se deliciava com os segredos que tinha, com os que não tinha, com os bombons e com o seu vinho.
Depois de rir, e depois de chorar de tanto rir. Elsa se levantou, guardou as garrafas, comeu o último bombom e deu boa noite para o nada. Passou batom, pos o seu melhor vestido e deitou-se muito bem arrumada. Afinal, já era natal.

A culpa foi dele



Sentei-me na poltrona que outrora fora vermelha. Ahhh! E que vermelho lindo era aquele que cobria a poltrona, um vermelho vivo, sangue quente, tinta, vermelho como aquela boca que um dia beijei.
A janela estava aberta e a varanda se encontrava coberta por um manto de folhas secas, parecia um palácio decadente, uma morada saqueada, um templo que perdeu sua magia. Mas era assim que eu me sentia naquele lugar, naquela hora, ali.
Acendi um cigarro olhei um pouco para aquele fumo aceso, e ao sentir aquele cheiro, aquele cheiro de séculos, aquele cheiro de anos, aquele cheiro meu, que vinha do queimar do cigarro, ao sentir aquilo, senti nojo. Nojo de mim, do cigarro, das folhas, da poltrona, nojo.
Traguei um pouco do meu cigarro como se já não houvesse mais jeito e balancei um pouco o rolo de fumo em cima do cinzeiro, mas o fiz, sem a menor necessidade, simplesmente por fazer, por achar bonito, por me divertir com as cinzas que caiam leves e livres do cigarro, por rir à beça com os desenhos rebuscados e brincadeiras inteligentes que a fumaça fazia no ar.
Antes de voltar com o cigarro a boca, parei com ele no ar e olhei para fora da janela, para além da varanda, para dentro da janela do vizinho. Me levantei, fui até a varanda, ignorando a presença das folhas. Acho que as folhas devem ter ficado um pouco chateadas com a minha atitude, porque elas gritavam um estalar seco e sofrido sempre que meus pés as ignoravam.
Apaguei o cigarro na mureta da varanda, e lá o deixei. Passei os meus dedos por cima da mureta, como se quisesse pegar para mim, toda a poeira e cinzas que ele e o tempo haviam deixado para mim. Peguei a poeira em mãos, soprei um pouco e depois a fitei com muito ódio. Não sei que ódio eu sentia no momento, se era ódio de mim, dele, do que fiz, da poeira, do cigarro ou da poltrona. Mas sentia ódio, um ódio bom, um ódio quase perfeito que parecia trazer alguma felicidade após a morte dele.
Virei as costas para a mureta, para a janela vizinha, para a poeira e para os cigarros. Voltei para a sala e fiquei olhando para a velha poltrona como se a tal fosse uma coitada, uma pobrezinha abandonada pelo tempo.
Peguei um copo vazio na mesa de madeira, uma mesa antiga e muito bonita, que fora mesa de sítio, mesa de alegria, de festa, fartura e saudade. Olhei para o copo, e o pus contra a luz, para ver se estava sujo, enchi o copo com alguma coisa, não lembro o que. Enchi de nada.
Tomei um pouco daquela lembrança vazia, daquele esquecimento gordo, enchi a cara, fiquei bêbado de rancor, de ódio, de satisfação.
Eu amava aquele homem meu Deus, porque ele teve de ter feito aquilo comigo? Logo antes de morrer? Ele precisava mesmo ter se deleitado nas caricias de outro? Precisava sentir o calor de outro corpo? Precisava sorrir para outro rosto? Para outros olhos? Essa era verdade, a verdade que mais doía. Saber que ele se fora amando outro, deitando-se com outro, beijando outro. Saber que antes de morrer ele bebeu de outro corpo, saber que o café que ele tomou fora outro e não o meu, que o cigarro que ele fumou, fora outro e não o meu.
Não tinha como aceitar tudo aquilo, principalmente porque agora, a poltrona como em um gesto de revolta, me encarava com deboche, como se retribuísse o meu olhar de pena. Junto a ela o cigarro da mureta se virou contra mim e parecia gritar de ódio por eu tê-lo apagado na mureta, e também, junto a esse dois, o copo vibrava em minha mão, todos contra mim, uma revolta conjunta, uma revolução pelo o que fiz com eles.
Era mais fácil aceitar, acreditar, que os objetos renegados e abortados se revoltavam contra mim pelo o que fiz a eles. Mas não, não funcionava assim, eles se voltavam contra mim por outro motivo, um motivo bem maior, muito maior. Eles pediam vingança, pediam a minha cabeça em uma bandeja de prata, clamavam para que o corpo dele, daquele homem que o meu amor matou, fosse vingado. Pediam a todas as forças do universo, para que eu, fosse morto, como matei aquele que eu amava.