sábado, 18 de setembro de 2010

Feliz natal



Na casa de dona Maria estava uma correria só. Seus filhos e netos não paravam de ir de um lado ao outro, enlouquecidos com os preparativos do natal. Dona Maria nem conseguia pensar em nada, o ensopado estava tomando conta de toda a sua atenção; aquele vapor que vinha da panela a estimulava a mexer mais e mais, como se seu o braço fosse uma máquina. A panela de dona Maria já estava meio velha, mas o ensopado do natal não poderia ser em outra panela, tinha de ser naquela, que já estava amassada de tanta lembrança. Naquele momento Maria mexia não só o ensopado, mas como suas memórias, guardadas há trinta anos. E talvez seja por causa dessa mistura que Maria não conseguira pensar em mais nada, já não conseguia mais distinguir uma lembrança da outra, estava tudo igual dentro da panela.
Depois que estava tudo quase pronto e as crianças corriam ansiosas com o brilho mágico que vinha dos embrulhos proibidos de presente; dona Maria mandou todos se sentarem a mesa, por os talheres, o peru, seu ensopado e suas lembranças na mesa. Depois que seus filhos e netos ocuparam a mesa, todos perceberam que um lugar estava vago. Nesse momento começou um burburinho e dona Maria permaneceu quieta e elegante. Derramou algumas lágrimas, mas não movia um músculo sequer.
O marido de dona Maria tinha morrido no ano passado, e todos os filhos tomaram um enorme cuidado para não pregar essa peça na pobre senhora. A peça de deixar um lugar vago como se Jorge fosse beber e comer novamente com sua família. Como se ele estivesse ali para rir. Como se eles estivesse ali para contar piada. Como se ele estivesse ali para comer o ensopado.
A filha mais velha foi então pegar um remédio na vizinha para baixar a pressão da mãe. A dona Lurdes atendeu a porta com um sorriso maravilhoso e não reclamou em ceder um de seus comprimidos. A vizinha fechou a porta e voltou para a sua ceia em família. Quer dizer, ceia entre amigos. Todo ano era assim: Lurdes só chamava para cear os seus amigos de anos, e era naquele momento feliz em que eles contavam tudo um para o outro. Todos os segredos iam embora antes da sobremesa. Esqueciam a idade que tinham e agiam como um clube secreto da época de criança de cada um.
Sem tirar o seu lindo sorriso do rosto, dona Lurdes disse que ia até o banheiro bem rapidinho e já voltava. Deixou então, os seus amigos na sala e foi até o banheiro. Lurdes lavou o rosto, lavou a mão e secou tudo com muito zelo, depois olhou para o espelho e viu o seu lindo sorriso refletido. Naquele momento ela lembrou do quanto a sua vida era desinteressante, do quanto já mentira para seus amigos naquele momento solene, só para ver se assim fazia com que a sua vida parecesse mais bonita. Não que ela mentisse ou exagerasse, mas por uma corzinha em um relato sobre compras, sobre viagens, sobre espetáculos, não fazia mal a ninguém. Ou fazia? Era isso que incomodava a pobre Lurdes, ter de mentir para quem não precisava disso. Aquele sorriso foi então minguando, minguando, minguando, até que se transformou em choro, um choro maior que o de dona Maria. Um choro quieto, mas um choro forte, um choro sofrido.
Enquanto Lurdes escondia mais um segredo em seu banheiro, o interfone tocava desesperadamente pedindo para ser atendido. Lurdes então se recompôs muito rápido e saiu com o seu sorriso maravilhoso no rosto para atender o interfone.
Do outro lado da linha falava dona Elsa, uma de suas amigas, dizendo que não poderia comparecer a ceia de dona Lurdes porque estava muito indisposta. Qual nada! Lurdes sabia que Elsa nunca aparecera a uma reunião de natal, sempre inventava alguma, sempre. Mas como sempre foi uma madame, dona Lurdes, lamentou horrores a ausência de dona Elsa e desligou o interfone desejando um bom natal.
Dona Elsa não fazia idéia do porque que ainda cismava em se justificar para Lurdes todo ano que não iria passar o natal com ela. Mas dane-se, Elsa já nem se preocupava mais com isso, ela estava começando com os seus preparativos, como todo ano. Pos na mesa a sua cadeira, abriu uma enorme caixa de bombons e abriu o seu melhor vinho. Olhou para o vinho e para os bombons e sorriu um pouco. Encheu uma taça, mergulhou um bombom no vinho, e o levou aos lábios com muita gula e luxúria. Lembrou-se então de suas amigas, daquelas pobres amigas. Soltou uma enorme gargalhada e abriu uma garrafa de cachaça, pos um pouco atrás da porta para o seu Exu e depois fez a mesma mistura que tinha feito com o vinho. E assim a noite se estendeu até seus bombons acabarem. Todos fadados a morte pela bebida de dona Elsa.
Quando deu três horas da manhã, Elsa levantou a sua taça no ar e desejou feliz natal a si mesma. Sempre estava feliz nesses momentos, sempre. Elsa não chorava nos natais por falta de família, ou por omitir segredos, não, não precisava disso. Elsa não precisava de ninguém, só de si, só do seu sorriso, dos seus momentos em paz. Não sentia falta de companhia porque nunca teve uma, então acabara se acostumando com a falta. E também não ligava para segredos, porque nunca se preocupara com o que os outros iam achar de sua vida, não usava máscaras, não. Mas ria à beça das máscaras das outras. Ria muito, até mesmo porque, o maior segredo de Lurdes, era a sua antiga paixão por ela; e antes de Jorge falecer, dormira com ele por quinze anos, bem debaixo do nariz de dona Maria. E sempre que o natal chegava, ela se deliciava com os segredos que tinha, com os que não tinha, com os bombons e com o seu vinho.
Depois de rir, e depois de chorar de tanto rir. Elsa se levantou, guardou as garrafas, comeu o último bombom e deu boa noite para o nada. Passou batom, pos o seu melhor vestido e deitou-se muito bem arrumada. Afinal, já era natal.

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