quinta-feira, 7 de outubro de 2010
Gina, preposição dos meus dias:
Veio em boa hora a tua carta. Já a minha, mais atrasada, porque minha, só agora: papel de assuntos acumulados, com um cheiro falso de pergaminho; de fantasmas, talvez.
Desde a tua que te escrevo e escrevo outras cartas, de memória. Esta é o que são todas elas, misturadas e difíceis de desembaralhar.
O caso é que eu sou burro e lerdo pra entender todas as coisas que você sabe e tenta me fazer aprender sem me ensinar. Eu tenho perguntado, pedido conselhos, mas todos dizem: "Ah, o amor não; não me comprometa; não sei de nada, etc". E sigo sozinho, ignorante, com vontade de me destruir e fazer outro que nos agrade a ambos. Por iss mesmo, digo logo que não se assuste: toda paixão é invejosa, é tenebrosa. Eu te dou a mesma moeda: o amor é cego e a cegueira é surda como um porta, que, de tão, ninguém vende, ninguém troca nem empresta. O amor: nosso presente. Que presente eu te dou?
Continuo te estranhando o jeito de não me falar das coisas. Eu te falo(não falo): Eu te dou a mesma moeda, diferente: a moeda que te dou é minha, e é a mesma que também você me dá, só tua.
Numa das vezes em que escrevia uma carta, essa, outra, larguei-a, fui ver TV e depois dormi. Na TV, assisti a um filme sobre a tragédia de Lady Jane e seu marido, reis da Inglaterra durante nove dias, jovens apaixonados e ingênuos, decapitados; noutro, a paixão de Judy Garland e Gene Kelly, num filme dos anos 40, em technicolor, com happy end, etc; noutro ainda, a paixão incontrolável entre um capitão autríaco e uma noviça, preceptora de seus sete filhos. Tudo lindo, necessário e inútil. Tão necessário e linda quanto todas as canções de amor que qualquer homem já cantou sobre a terra. Tão inútil quanto. Suspeito que a canção possível ao amor nosso de cada dia deve vir de mim e de você, que somos assim e assado, que aprendemos tais canções e vimos tais filmes. Etc.
No começo era o verbo. E tudo, tão no começo, parecia tão óbvio, que era bastante fácil encontrar palavras, ou inventá-las; ou, quem sabe, as palavras nos inventam, e dizíamos: o amor, etc, etc. Hoje, preciso falar pra você de uma moeda, de uma outra que é minha, de uma terceira, que é tua, pra dizer que é ainda outra, que também não tem nome. E isso, faço pensando num jeito de falar(de um jeito que nem se fale), com a certeza mais pura; tão pura como no começo, de verbo, de silêncio, de não sei que outra palavra( que também não me basta), com a certeza de que, para além da dúvida que há, há o meu amor e o teu, que vêm de mim de você, de você de mim.
A minha história, a tua, a de todas as pessoas que já viveram, paira sobre tudo. Falo de uma moeda, já disse, pra dizer que não se empresta, não se vende, não se. Moedas não valem nada, afinal.
Mas sim, tua carta é legível; bem mais que esta. E algo que eu supus ter dito já, de outras formas, quero te dizer agora por escrito( a carta está assinada-vá, talvez, a alguma cartório, e registre; mande publicar nalgum jornal): Eu te amo, mesmo quando nem penso em você, mesmo quando tenho fome ou dor de cabeça. Mesmo quando estou cansado demais para o mais mínimo gesto de amor, eu te amo como jamais a outra pessoa. Eu te amo, enorme, gigantesca, amor preposto em carne, espírito e coisas outras que não sei o nome.
Não gosto, porém, de achar que é necessário fazer juras de amor eterno todos os dias; não quero que as juras nos sustentem: Há muito tempo não é mais a fé que leva os crentes a se voltarem a Meca, todos os dias, às seis da tarde, em gestos vãos como dar bom dia. Deus não serve pra nada- não falamos, ninguém fala a mesma língua. Ninguém fala. E o verbo, carne do desejo de quem diz, é vão em orações e preces; em juras de amor. Deus está morto em palavra. E na sua observância impaciente assiste incrédulo às tentativas que fazemos, ainda hoje, na mesma Torre de Babel. Deus está morto, como estamos, uns parcos bilhões de seres, divindades parcas, presos no emaranhado de umas poucas palavras que não deixam mentir: estamos sós. Toda solidão é involuntária. E nós, aos pares, aos bandos, estamos absolutamente sós. Dá-me o prazer desta contradança, desta contradanação?
De, por, para,
Luiz Henrique
quinta-feira, 30 de setembro de 2010
Os doces e seu menino
Um menino caminha chutando pedrinhas.
Sabe bem da grandeza do caminho
E bem por isso caminha sozinho.
Enquanto as pedras chutadas forçam lembranças,
De um passado-futuro,
O menino se adimira e se cansa,
Com as imagens do presente no escuro.
Próximo ao meio do fim do caminho
O pequeno já não se vê sozinho.
Segue ladeado por outros pequenos
Que assim como ele
Também são meninos.
Quando chega à porta da loja,
Nossa criança se excita e se toca:
Que suas lembranças já estão quase mortas,
E seus doces açúcares estão caminhando
(também sozinhos)
Por outra estrada torta.
terça-feira, 28 de setembro de 2010
Infância
Eu botava ela no caminho.
A deixava miudinha
Pro chão não ficar sozinho.
Se eu tivesse uma folinha
Eu cobria os olhos dele.
Para que ela, tão miudinha,
Não prendesse minhalma nele.
Se eu tivesse uma gotinha
Eu a fingia de lágrima.
Pois como ela é miudinha
Limparia meus olhos dágua.
Se eu tivesse uma paixão
Iria guardar essas miudezas.
Porque tudo ficaria grandão
E aumentariam as incertezas.
Para o príncipe encantado, o namorado eterno sem namoro: André.
sábado, 25 de setembro de 2010
Lágrimas Negras(e/ou)Por parte de pai
de lágrimas,
Ela virou e quase gritou.
Mas um grito surdo.
Chorado mesmo:
É muito triste saber que ele não existe mais.
A existência do não existir ainda é difícil
Para o homem, para mim, para minha mãe...
E para o único protagonista da história.
Aquele que ainda tem medo da imortalidade criada.
Ela ficou triste pelas férias da existência.
Eu fiquei magoado com a mentira do Mautner.
É que no caixão,
Os poços de petróleo de meu pai,
Não tinham mais luz. Nem mesmo a negra.
"São poços de petróleo/ A luz negra dos seus olhos"
sábado, 18 de setembro de 2010
Estrela da vida inteira
Ele pegou essa estrela na mão.
Depois de muito olhar ele percebeu,
Que aquela era a estrela da vida inteira.
A estrela que eu achei pra me acompanhar,,
Igual aquela que Manuel usou,
Não é da vida inteira.
Porque ela cisma em me viver pela metade,
Não se doou por inteira até agora.
Não sei se essa estrela um dia será inteira pra mim.
[Ou pra ela
Não sei também se essa será minha estrela da vida inteira.
Mas por enquanto,
Enquanto não passa o próximo cometa.
Eu aceito viver pela metade com ela.
Toda vermelha
Quando criança, ninguém me assoprou no ouvido
Como fizeram com a Drika.
Quando criança eu ouvi uma história.
Quando criança eu contava:
Era uma vez um lago.
Mas um lago muito distante.
No meio desse lago tinha uma flor,
Uma flor rosa toda vermelha
Os ouvintes de mim quando criança
Riam,
Riam demais até eu não conseguir mais contar.
Não sei como a história termina.
Não sei aonde foi parar a flor...
O perfume
Chegara bem antes do combinado, sempre fazia assim. Não conseguia chegar muito perto do horário marcado, parecia que ele preferia se machucar olhando as horas passarem lentamente até chegar ao horário dos seus encontros.
Foi direto para a livraria, só lá ele encontrava um meio de amenizar sua agonia, sua angústia, sua ansiedade. Andou por todos os lados do espaço, vasculhou todas as estantes, folheou alguns livros bobos e riu das bobeiras que leu.
Chamou um atendente e perguntou sobre o primeiro título que veio na cabeça. Não queria ler, só precisava se distrair, enganar o seu coração, para que ele não gritasse tanto perguntando pelo outro. O atendente demorou muito para encontrar o livro, mas o achou.
Quando pegou no livro, só conseguiu ler um conto maravilhoso de Antonio Carlos Viana; porque, enquanto seus olhos mastigavam as letras, a sua cabeça imaginava coisas e seu coração perturbava com perguntas: Será que ele vai gostar da gente? Será que ele é bonito mesmo? E se ele não vier? Olhe a hora, ele não vem mais, pode apostar.
Segurou-se para não gritar, se não chamaria a atenção dos clientes e assustaria os livros. Fechou o livro e ficou andando por ali tentando afastar as imagens inventadas e as perguntas bestas. Não conseguiu.
O celular tocou uma vez, e com as mãos tremendo conseguiu atender. Era ele, dizendo que chegaria logo. Puxa, ele iria, não tinha mentido. Para sua surpresa, as perguntas aumentaram e as imagens voltaram com toda a força, não queriam se acalmar.
Precisou comprar uma água para relaxar, estava tenso demais, não conseguia se conter. Bebeu a água em um gole só, e mesmo assim ainda estava nervoso. O horário estava estourando ele ainda não tinha aparecido.
Enquanto olhava para além do vidro da porta, passou perto dele um rosto conhecido, ele então virou-se para ver se era mesmo ele, mas pensou que era só mais uma besteira criada pela sua cabeça. Ignorou. Insistiu com a imagem e olhou de novo; sim era ele. Sua cabeça não mentia tanto assim. Sorriu involuntariamente, e seu sangue pareceu ferver de alegria quando pode abraçar aquele corpo.
Era tão lindo, tão doce, tão tímido, tão cheiroso. Não poderia estar ali, não com ele. Sentiu uma vontade enorme de beijá-lo na frente de todos, mas conteve-se, sentiu uma vontade enorme de apertar sua mão, mas conteve-se, queria sentir melhor o seu cheiro, mas conteve-se.
Enquanto a história se apresentava para os dois, ele só pensava em olhar para aquele rosto que sustentava duas lentes que brilhavam no escuro. De vez em quando puxava assunto, não por educação, mas para poder ouvir a voz dele mais um pouquinho. Só para ter certeza de que estava do lado dele, com ele, ouvindo ele, só ele. Não conseguia sentir mais nada, além do perfume maravilhoso que aquele corpo exalava. Parecia querer provocar.
A história terminou mal, e no fim só conseguiu alguns toques dele. Mas ao se despedirem, ele deixou um presente. Deixou com que ele ficasse para sempre, com a lembrança do seu cheiro.